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sábado, 17 de julho de 2010

Ensaio sobre a cegueira, O livro



Certamente o melhor livro que já li em toda a minha curta vida.


Trata-se de uma narrativa extremamente dinâmica e cinética que envolve o leitor pelos laços indissolúveis da curiosidade. A escrita peculiar de Saramago, com a inserção dos diálogos nos parágrafos sem ser introduzidos por travessões ou qualquer outro sinal gráfico e a separação das falas dos diversos personagens por vírgulas pode ser enebriante ao primeiro contato, mas de forma alguma se torna um impecilho diante da fascinante viagem pela história que se desenrola bem diante de nossos olhos.



Utilizando-se de toda a sua criatividade, o autor cria uma alegoria através da qual consegue expor todas as nuances do comportamento humano ao criar uma epidemia impensável de cegueira branca (epidemia em seu significado mais puro; mais que isso, uma doença que rapidamente se espalhou a todos os habitantes da cidade fictícia da história) que nos levará a refletir sobre aspectos ocultos das capacidades humanas perante estados de extrema necessidade.


Em um cenário onde o importante é a sobrevivência, o leitor vê desmoronar, uma a uma, as diretrizes da vida social milenarmente construídas. A partir de então, "desvios de conduta" são passivamente observados sem que haja outras possibilidades. Por exemplo, ao serem obrigadas a prestar serviços sexuais em troca de comida, as mulheres não têm outra opçãomque não aceitar e se sujeitar, passivamente; e esse fato, de forma alguma, chega a manchar a integridade dessas mulheres. O orgulho dos homens, por outro lado, pouco se modifica perante a essa nova situação em que condutas sociais e regras de convívio são reescritas. Os menos plásticos são os personagens masculinos.


Nesse mesmo contexto, a protagonista do romance se destaca página a página por suas infindáveis qualidades para, no clímax da história, protagonizar uma cena esperada: assassinar o homem que as estavam subjugando e abusando. Mostrados em paralelo estão, então, a extrema generosidade dessa mulher em se dispor voluntariamente a guiar e auxiliar um grupo de cegos e a capacidade de assassinar seu autoproclamado tirano.


Durante a narrativa, o autor nos põe em contato com essa fantástica personagem, a mulher do médico, uma mulher extremamente corajosa, disposta a tudo para fornecer apoio incondicional ao seu marido, na extremamente bem elaborada cena em que ela finge estar cega para ser posta em quarentena em um manicômio abandonado para poder cuidar dele. Pelo marido ela tem sua liberdade e direitos civis básicos restritos (alimentação, saúde). Ela, que é a mais fantástica personagem já criada pela literatura mundial, demonstra ao longo da narrativa, toda a sua perspicácia em diálogos incrivelmente sagazes e elaborados, e mantém sua lucidez mesmo diante do caos total.


Frente a situações inesperadas (admitamos que uma epidemia de cegueira branca é um tanto quanto rara) nas quais os personagens se veem abandonados à sua própria sorte, Saramago os mostra despidos de sua 'casca' social para que o leitor possa se ver nesses personagens universais, que não têm nome nem pertencem a lugar algum, não são ninguém e, ao mesmo tempo, são todos e cada um de nós.


Enxerguemo-nos!





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